CULTURA: José Padilha, diretor de "Ônibus 147" e "Tropa de Elite", lança seu novo filme, "Garapa", em Fortaleza

O diretor José Padilha lança nesta quinta-feira, dia 21 de maio, às 21 horas, no Unibanco, o filme Garapa. Mais cedo, às 18 horas, o diretor participa, na Vila das Artes, do programa Conversa com o Diretor, onde vai falar sobre sua produção, carreira e desafios do cinema nacional.

Padilha ficou conhecido internacionalmente pela direção dos sucessos Ônibus 147 e Tropa de Elite.

Segundo material divulgado pela produção do longa, Garapa é o resultado da preocupação com a vida das pessoas que passam fome. Segundo a ONU, mais de 920 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo. O impacto desses números depende da nossa compreensão do que significa "passar fome".

"Geralmente, os meios de comunicação discutem a questão a partir de uma perspectiva macroscópica, debatendo as causas ambientais, geográficas, econômicas e políticas da fome. Embora este debate seja fundamental, continuamos, no entanto, sem saber como é a vida das pessoas que passam fome. Para que se compreenda o real significado do problema, é necessário conhecê-lo de perto", afirma o texto enviado pela produção.

O filme Garapa é fruto de mais de 45 horas de material filmado por uma pequena equipe que, durante quatro semanas, acompanhou o cotidiano de três famílias no estado do Ceará. À frente dessas famílias estão Rosa, Robertina e Lúcia - mulheres que, diante das condições mais adversas buscam estratégias de sobrevivência.

INTRODUÇÃO

Responsável por um dos filmes mais polêmicos e bem sucedidos do cinema brasileiro contemporâneo - o policial Tropa de Elite, visto por mais de 2,7 milhões de espectadores em 2007 e ganhador do Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim de 2008 -, a ZAZEN Produções volta à cena com GARAPA, documentário sobre a questão da fome crônica. O projeto de Garapa nasceu em meados de 2001, a partir de uma conversa entre José Padilha e Marcos Prado, amigos e sócios na Zazen.

"Tínhamos uma preocupação séria em relação a dois temas que gostaríamos de desenvolver: a questão da fome no Brasil e o problema global da escassez da água", conta Marcos Prado. "Decidimos então que Padilha faria o documentário sobre a Fome - que se tornou o Garapa - e eu desenvolveria o projeto sobre o problema da água, que está em fase de desenvolvimento".

Com essa idéia na cabeça, Padilha visitou o Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, fundado pelo sociólogo Herbert de Souza em 1981), onde conheceu Francisco Menezes, um dos diretores do instituto, de quem ficou amigo. Ao entrar em contato com uma questão tão delicada e complexa, o cineasta achou que seria fundamental fornecer um ponto de vista alternativo à forma distanciada como o assunto costuma ser tratado na grande mídia - algo que ele já havia experimentado em Ônibus 174, filme que humanizou um episódio carioca trágico, tratado com sensacionalismo pelos meios de comunicação.

"Lendo os dados da ONU, do Ibase ou do IBGE você pode aprender que milhões de pessoas no mundo e no Brasil sofrem de deficiência alimentar grave. Mas isto não significa que você tenha entendido o que é a fome crônica para quem luta contra ela no dia a dia. Garapa documenta a fome do ponto de vista de quem passa fome. O filme foi feito para que o público em geral possa ter uma idéia do impacto que a insegurança
alimentar grave tem na vida das pessoas que estão nesta situação."

Fome cr ônica

Na medida em que aprofundou sua pesquisa, Padilha encontrou na obra de Josué de Castro (1908-1973) algumas idéias que foram fundamentais no estabelecimento dos conceitos básicos do filme. Em Geografia da fome, escrito em 1946, Josué de Castro cria uma distinção entre a fome aguda (starvation, em inglês), aquela em que as pessoas ficam sem comer nada e que em determinado prazo leva à morte, e a fome crônica (ou subnutrição crônica), que se manifesta em populações muito carentes de elementos essenciais da alimentação. São essas as pessoas que, segundo a FAO (ramificação da ONU que lida com a questão da agricultura e da fome no mundo), sofrem de "insegurança alimentar grave". "Logo percebemos que o filme precisava falar dessa fome, oculta e crônica, que tem um peso social muito maior", completa Padilha.
Em suas conversas com Francisco Menezes, Padilha chegou à conclusão de que seria importante abordar três condições capazes de revelar aspectos diferentes do mesmo problema.

"Era preciso mostrar uma família que morasse em uma cidade grande (e a gente tem a família da Lúcia, que é de Fortaleza), uma família que morasse perto de uma cidade pequena (a família da Robertina) e outra que morasse no meio do nada (a família da Rosa). Além disso, queria ter no mínimo uma família que recebesse o bolsa-família (a família da Rosa), para tentar entender o impacto que o programa do governo tem para essas pessoas". Não houve, no entanto, uma pesquisa prévia para determinar quais famílias seriam retratadas. Padilha reuniu uma equipe de cinco pessoas e partiu para o Ceará apenas com o contato de algumas organizações não-governamentais da região. "Não viajei meses antes e fiquei escolhendo os personagens do filme", diz
Padilha. "Fomos para lá e logo começamos a filmar as famílias que encontramos. Focalizamos uma ou outra em um processo razoavelmente aleatório, uma escolha feita na hora, ainda que com certos critérios. Conhecemos Lúcia, por exemplo, graças a uma ONG que tinha um centro de nutrição no bairro de Palmeiras. Ficamos lá um tempo, Lúcia chegou e começamos a filmá-la. Não pretendo, evidentemente, que essas famílias sejam uma representação mundial das pessoas que lidam com o problema da insegurança alimentar grave; eu queria, justamente, particularizar o problema. Mas, no fim do processo, acho que elas acabaram sendo representativas de elementos comuns para quem está nesse universo, como a tendência a comer alimentos altamente calóricos".

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