O artista plástico Estrigas recebeu nesta quinta-feira, dia 24, a medalha Boticário Ferreira na Câmara Municipal. Na mesma solenidade, a esposa de Estrigas e também artista plástica Nice Firmeza recebeu o título de Cidadã Fortalezense. As duas homenagens foram propostas pelo vereador Guilherme Sampaio, em reconhecimento à produção artística do casal. Em seu discurso, o vereador enfatizou a grandeza e divindade dos seres humanos que produzem arte e que levam outras pessoas à fruição e contemplação do belo, referindo-se ao trabalho de Estrigas e Nice.
Na foto, da esquerda para a direita: a secretária de Cultura do Município, Fátima Mesquita, o secretário da Cultura do Estado, Auto Filho, artistas plásticos Estrigas e Nice e vereador Guilherme.
LEIA DISCURSO DE GUILHERME NA ÍNTEGRA:
Srs. Representantes da classe artística, demais autoridades presentes, familiares, amigos e admiradores de Nice e Estrigas, muito boa noite.
A arte é a linguagem da alma. Alguns raros seres humanos passam pela existência e se expressam, por razões inexplicáveis, com espontânea fluência nesse idioma do divino. Nos tocam num ponto inatingível pela razão. Inexprimível pelas palavras. Só o silêncio do deslumbre é a atitude possível diante de sua obra.
Não há que entendê-los e nem a sua criação. Apenas que usufruir o infinito no instante.
O destino presenteou Fortaleza com duas dessas almas. Fosse só Estrigas, ou só Nice, a cidade já teria suficientes razões de regozijo. Mas aqui, as vias de nossa urbe, os recantos da cidade do sol, nos proporcionaram algo mais. Nos permitiram testemunhar o encontro de Nice e Estrigas. Acompanhar sua militância na classe artística. Deslumbrarmo-nos diante de sua criação. Orgulharmo-nos do patrimônio cultural que representa o museu Firmeza. E como se já não bastasse, nos deram ainda os aromas de seus jardins, a sombra de um belo baobá, a acolhida delicada e tranqüila com que recebem a todos em sua morada, de crianças a intelectuais que lá sentem a mesma emoção, o mesmo embevecimento diante do simples e do belo.
A cidade de Fortaleza, devedora de um reconhecimento a altura das contribuções de Estrigas e Nice, começa essa noite, tardiamente talvez, a prestação desse tributo, oferecendo ao artista plástico, crítico de arte, dentista e escritor Estrigas, a sua principal comenda, além da justa homenagem feita pelo sexagésimo salão de abril. E reconhecendo na artista e apaixonada arte-educadora Nice, aquilo que a vida já lhe consagrou, a sua legítima cidadania.
Esse gesto é preenchido por uma essência simbólica de profundo significado político, social e humano. Num primeiro plano, representa a afirmação da arte e da cultura, o reconhecimento desse espectro da atividade humana como eixo estratégico e fundamental na constituição da nossa cidade, como expressão de nossa identidade e como base estrutural, enquanto economia criativa, sobre a qual deveria ser erguido nosso projeto de desenvolvimento. E essa é uma afirmação inovadora , mais que isso, necessária, haja vista a penúria das políticas públicas de cultura no estado brasileiro. Destacar essas contribuições, a maneira hercúlea, heróica como essas trajetórias foram construídas, a sua incansável resistência frente a miopia do poder público, é também denunciar o descaso do estado brasileiro com manifestações que deveriam ser vistas como o maior patrimônio de sua sociedade. Que deveriam ser apoiadas e erguidas ao alto como ícones para a juventude e para as crianças. Respeitadas como as referências a partir das quais nos orientamos e seguimos em frente.
Essa homenagem representa ainda o reconhecimento da comunidade de Fortaleza, nosso agradecimento por esse convívio com as pessoas de Nice e Estrigas e com o que sua arte nos permite acessar. Algo absolutamente inestimável. Coisas que só um suspiro, um sorriso ou um olhar são capazes de expressar. Representa também o abraço dos amigos, o respeito dos colegas da classe artística, o afeto da família, enfim, o carinho, o amor nutrido no âmago da admiração de que são objeto os nossos homenageados.
E não menos importante, representam ainda essas homenagens a personificação, nas figuras de Nice e Estrigas, das mais sublimes qualidades que expressam o bom, o belo, o virtuoso em nossa cidade. Significa dizer-lhes que enxergamos nos dois o melhor em nós. Que nos sentimos grandiosos em suas trajetórias.
Conceder a alguém o título de cidadão, como fazemos hoje com Nice, é reconhecer-lhe como um dos nossos. É afirmar-lhe que sua vida, seus feitos, seus afetos, sua história se unem de tal forma a história da cidade que já não mais é possível lê-las de forma apartada. Já não mais é possível contar a história de Fortaleza sem referência a história de Nice, de seus jardins e do Mini museu Firmeza. Em última instância, os formalismos desta noite nada mais são que um reconhecimento legal daquilo que já é. Da dádiva que Aracati proporcionou a Fortaleza nos emprestando uma filha ilustre que agora também é nossa.
Lembro ainda da conversa que mantive com Estrigas por ocasião do encontro que tivemos em sua casa. Das referências carinhosas por ele feitas a meu avô Sampainho. Das recordações do convívio profissional com minha mãe, quando ainda exercia a odontologia na Secretaria de Educação. Lembro do passeio por seus jardins e de admirarmos juntos à sombra do Baobá, ouvindo seu desejo de ter suas cinzas um dia a adubarem aquelas raízes. Lembro do café com pé-de-moleque e de ouvir-lhe falar da simpatia por essa comenda: a Boticário Ferreira. De fazer referência a praça onde tudo acontecia. De suas experiências ali, do encontro com os amigos, da molecagem cearense, e para minha surpresa, para além da célebre vaia ao sol, de outra por ele relatada e testemunhada, por incrível que pareça, a vaia a um funeral. Típico de Fortaleza. Assim como Estrigas. 90 anos entrelaçados com a história da cidade que hoje lhe rende esse tributo.
Ao sair, lembro-me ainda da delicada oferta de Nice. Uma rosa de seus jardins, como a que gosta de usar nos cabelos. E lembro também de sua pergunta: tem pra quem dar?E eu de pronto respondo: claro! Naquele momento, não tive a coragem de revelar que era pra mim mesmo, Nice. Mas seria imperdoável ficar sem aquele efêmero souvenir do paraíso.
Em nome do povo de Fortaleza, obrigado Estrigas. Obrigado Nice. Mas as palavras que emergem da razão jamais serão suficientes para expressar tudo isso. Aliás, o que pode um homem de 38 dizer a um homem de 90? Como referi ao início, diante da arte só o silêncio do deslumbre. Ou, talvez, uma tênue aproximação, pelas palavras do poeta:
A palavra justa brota do vazio, evoca o vazio e retorna ao vazio. Tudo é sagrado. Mas o mais sagrado, de tudo, é o silêncio.
Muito obrigado
Vereador Guilherme Sampaio