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20/05/2010 11:36h

Forrozeiros lançam Associação Cearense de Forró

O momento é histórico para o forró no Ceará. Dia 24, a partir das 11h, na Praça do Ferreira, será lançada a Associação Cearense de Forró - ACF, um canal de diálogo entre artistas do forró, produtores musicais e público. Cerca de 30 sanfoneiros, zabumbeiros e tocadores de triângulo, integrantes do velho e bom trio pé-de-serra, vão fazer uma espécie de sanfonia, abraçando a Praça com os diversos ritmos que compõem o forró. Na ocasião, a ACF vai distribuir 200 discos - um tira-gosto do trabalho da Associação.


A ACF é um fórum criado pelos forrozeiros pé-de-serra para apreciação conjunta de propostas, projetos e ações públicas referentes à divulgação e fortalecimento do forró tradicional no Ceará e surge no cenário cultural do Estado demarcando um importante território: criar, fomentar e produzir eventos ligados e direcionados ao forró pé-de-serra, articulando, através de pesquisas, estudos, projetos culturais, sociais e educacionais, ações que contribuam com a valorização do forró no Ceará.

Músicos como Adelson Viana, Ítalo Almeida, Renno Saraiva, Neo Pinel e Messias Holanda, lendário forrozeiro, integram a Associação; um símbolo da polifonia de vozes, diversidade de timbres, estilos e formações musicais que compõem a ACF.

Para Adelson Viana, a ACF fortalece o forró, gênero autenticamente nordestino, contribuindo para a cultura cearense. "Estamos prestando um serviço social e educacional à cultura local e ao País. O que é genuíno e verdadeiro tem que ser preservado; é a nossa identidade enquanto povo". "Nunca houve uma reunião de forrozeiros cearenses, de músicos que estão nesse nicho do forró tradicional, popular. A ACF possibilita uma troca de ideias entre várias gerações, fortalecendo, solidarizando um trabalho que, se fosse individual, não teria tanta força", acredita Ítalo Almeida.

A partir da ACF, a classe artística discute ampla e democraticamente todo o processo de consolidação do forró tradicional, numa busca coletiva por consensos. Todas as decisões de artistas ligados à ACF acerca shows, por exemplo, são discutidas na associação.

A ACF se reúne semanalmente, todas as terças-feiras, no Kukukaya, espaço cultural que assume um compromisso declarado com a cultura tradicional popular do Ceará - casa de shows que semanalmente apresenta shows do forró de qualidade em Fortaleza. As reuniões começam às 19h.

Por um forró de qualidade - A Associação Cearense de Forró surge num mercado dominado pelo chamado "forró eletrônico", recorte do gênero tradicional lançado em 1980 no Estado que executa um forró alambado, com base nos teclados, e que coloca dançarinos no palco executando uma coreografia lasciva.

Nessa esteira, várias bandas do estilo surgiram; tantas que, por parecerem tão iguais, incorporaram o termo "forró" - ao ponto de fazerem os forrozeiros tradicionais autodenominarem-se de "pé-de-serra" - e passaram a anunciar o nome em meio a uma música. Resultado: o forró nunca mais foi o mesmo. Dos anos 80 para cá, a situação declinou tanto que as letras dessas músicas passaram a incitar ao sexo, lançar mão de palavrões, depreciar a imagem feminina e tratar as relações humanas como descartáveis.

Para fazer um contraponto a essa realidade local, A ACF surge com vistas a valorizar e qualificar o forró tradicional que, para os integrantes da ACF, é o gênero tipicamente nordestino, que compreende os ritmos baião, xote, arrasta-pé, coco e xaxado, tanto dançados quanto tocados. "Uns dizem que o forró surgiu do termo 'for all' (para todos), afixados na entrada do baile de inauguração, ao som de sanfona e zabumba, da primeira estada de ferro construída em Pernambuco, por volta de 1942. Mas em 1937, a palavra forró já aparecia registrada na música "Forró na roça", de Manoel Queirós e Xerém. Antes disso, em 1912, Chiquinha Gonzaga compôs "Forrobodó", que lhe valeu o Prêmio Mambembe, em 1915", atesta o forrozeiro Neo Pinel. "O certo é que o forró é o local, a dança, o gênero musical e o ritmo democrático de influências indígenas, africanas e europeias", finaliza.



CONFIRA ARTIGO DO VEREADOR GUILHERME SOBRE O TEMA:

Sobre a transformação do "forró"

O Brasil do dia 13 de Dezembro de 1912 viu nascer aquele que viria transformar a música popular brasileira: Luiz Gonzaga do Nascimento. Em homenagem a ele, a data de hoje foi instituída, pela Lei nº 11.176, o Dia Nacional do Forró.

Temos hoje, de fato, o que comemorar?

O Forró, tradicionalmente, da forma como foi concebido, é uma genuína manifestação popular nordestina. Nele, vários ritmos musicais se misturam com fortes influências européias, africanas e indígenas e são tocados, originalmente, por trios compostos por sanfoneiro, zabumbeiro e um tocador de triângulo.

É uma música tão forte, tão primitiva, que sintetiza elementos fundamentais da nossa cultura. É a amálgama perfeita das influências das etnias que compuseram a formação do nosso povo. Possui semelhanças com o toré dos índios, no arrastar dos pés. Tem semelhanças com os ritmos binários europeus, assim como com o balançar dos quadris tipicamente africano.

Desde os anos 50, quando o Brasil passou a dançar o xote, o xaxado, o baião e o miudinho, embalados pelo forró de Luiz Gonzaga, muita água rolou e algo de estranho aconteceu. O nosso forró, manifestação cultural tão genuína, começou a ser afetado, transformado, travestido pelas demandas de uma indústria cultural movida exclusivamente pelo retorno comercial daquilo que produz.

Nos últimos anos, a paixão pelo forró vem servindo de justificativa para criação de uma estética vazia de sentido, de informação e de conceito. Em nome do forró, essa indústria de bandas se desenvolveu na construção de uma música que nos diminui em sua desqualificação sonora e literária e que, associada a setores da mídia, tem provocado enorme dano à conservação e o devido enaltecimento de um patrimônio cultural tão forte e que tanto representa ao povo nordestino.

O forró que nos referencia encantou o País com sua matriz poética inspirada no sertanejo e é música e dança alegre e sensual. O que hoje vem formando toda uma geração não é o forró que podemos reconhecer no trabalho de Luiz Gonzaga e seus seguidores. O que se ouve hoje de forma massificada é um subproduto mercadológico que, infelizmente, faz a cabeça de uma rapaziada sem oportunidade de acesso a mais e melhores informações musicais. Por certo, os apreciadores das bandas e canções feitas em escala industrial hoje não conhecem tantos nomes que, inspirados nas nossas raízes musicais, criaram um novo som para um novo mundo!

O que se tem para comemorar de fato hoje, Dia do Forró, é a recente instalação em Fortaleza da Associação Cearense do Forró, entidade sem fins lucrativos formada para defender a cultura popular tradicional nordestina, manifestada por meio do nosso ritmo.

Por fim, fica o alerta: ainda podemos resistir no diálogo e na luta incessante por meios de comunicação democráticos, que se façam coadjuvantes na defesa da cultura popular e no papel de educar uma nação cidadã.

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