Theaomai - A Função Social do TJA
O Theatro José de Alencar faz 100 anos! Neste momento de festa, de justíssimas comemorações, não quero falar do teatro como espaço físico onde se desenvolvem projetos interessantes e espetáculos grandiosos, nem do lindíssimo palco rodeado de ferragens escocesas, que vieram dar brilho às noites das elites alencarinas, ou mesmo do delicioso jardim de Burle Marx, verde oásis no meio do barulhento centro de nossa cidade. Também não cabe aqui lembrar dos iluminados vitrôs, que filtram mágicas luzes para o interior da caixa principal. Quero falar do Aniversariante sob a perspectiva do teatro em sua definição primeira, da palavra derivada do grego theaomai, que significa "olhar com atenção, perceber, contemplar". Theaomai como significando uma experiência intensa, envolvente, que está longe de ser apenas um olhar comum, no sentido de ver apenas.
Me proponho a pensar o teatro, o theaomai, como um lugar condensado de ambiguidades e paradoxos e que, por isso mesmo, foi o lugar onde a nascente democracia ateniense encontrou seu espaço de amadurecimento. Reconstruída depois da destruição pelos persas em 480 a.c, Atenas desenvolveu forte orgulho cultural e cívico e o teatro foi fundamental neste processo. Tendo-o como referência, os legisladores passaram a usar o teatro como instrumento para administrar e amenizar as contradições da sociedade, baseada em sua nova estrutura democrática.
"As encenações trágicas são a criação de arte mais característica da democracia ateniense e, em nenhuma outra forma de arte, se dicernem, tão direto e claramente como nela, os conflitos internos de sua estrutura social!" (HAUSER, arnald, História da Arte e da Literatura.São Paulo: Mestrejou, 1990. p.124.)
Na ótica lançada acima por meio da citação de Arnald Hauser, reflitamos sobre este TJA que veio se construindo e se constituindo como nossa "Praça de Diálogo". Sobretudo nos últimos anos, o José de Alencar evoluiu de lindo e rico espaço de encenações teatrais para um espaço de discussão sobre nossa cidade, nossa democracia, nossas contradições e paradoxos.... tudo muito semelhante à função inicial de theaomai, lá na Grécia antiga.
Hoje, o TJA é o espaço físico e filosófico de debate sobre o centro de Fortaleza, sobre questões de uso urbano e ambiental fundamentais para fazer desta uma cidade que possa se orgulhar de seu desenvolvimento. Em que pese a importantíssima função meramente artística de um teatro como o nosso - e que deve ser tratado como joia rara, não devendo jamais ser mal tratado do ponto de vista de sua manutenção e guarda, posto que é uma referência no mundo das artes e ponto estruturante do eixo dos equipamentos culturais desta cidade -, o TJA deve ser comemorado e reverenciado, atualmente, como um espaço que se fez democrático, acessível às mais diversas formas de fazer artístico para muito além do teatro, conseguindo, ainda, ser arena de um olhar ampliado sobre os problemas de Fortaleza, tão ricamente condensados no espaço da Praça José de Alencar.
Por meio do Movimento Viva o Centro, capitaneado pela direção do José de Alencar e que usa a força simbólica e real daquele equipamento para levantar amplos debates sobre a sustentabilidade e futuro do Centro, o Theatro desempenha, talvez, seu mais importante papel, propiciando uma importantíssima reflexão sobre Fortaleza e suas prioridades. No Viva o Centro, com e no Theatro José de Alencar, os desafios do Centro têm sido estabelecidos a partir de parâmetros que valorizam a qualidade de vida para todos os cidadãos desta cidade linda e desigual. O TJA é nosso theaomai na origem da palavra e no olhar atento e contemplativo que lança sobre a cidade.
Guilherme Sampaio